NOTA OFICIAL DO COLETIVO DE MULHERES DO CAASO E FEDERAL SOBRE OS EVENTOS ACONTECIDOS NO DIA 26/02 NA USP SÃO CARLOS

Não é novidade a existência de atos machistas dentro da universidade e de trotes abusivos. Em diversas instituições do país são organizados eventos que se passam por simples e inocentes concursos de beleza e são cometidos abusos que se passam por meras brincadeiras. O Coletivo de Mulheres do CAASO e Federal compartilha com os estudantes de todo o país a dificuldade em se opor a tais acontecimentos e em tentar dialogar com a sociedade sobre o machismo disfarçado e naturalizado dentro e fora da universidade.

“MISS BIXETE”: DO QUE SE TRATA

Há alguns anos acontece no espaço do CAASO (Centro Acadêmico Armando Salles de Oliveira), entidade representante dos estudantes da USP de São Carlos, um evento chamado “Miss Bixete”, organizado pelo Grupo de Apoio à Putaria (GAP) no qual mulheres recém chegadas na universidade são induzidas por seus veteranos/as a participar de um “concurso de beleza”, no qual são submetidas a várias “brincadeiras” consideradas por muitos pejorativas e simbolicamente agressivas.

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Feministas se manifestam contra a objetificação das mulheres.
Foto: Laura Ferraz

Apesar de não haver ocorrido em 2013, nos últimos 10 anos uma prostituta era contratada, para mostrar os seios, passando-se por uma caloura da Arquitetura (primeiro de muitos cursos que se negou a participar), incentivando as outras participantes a fazerem o mesmo.

Desde 2005, estudantes contrários a esse tipo de integração vem discutindo o tema e buscando manifestar-se contra. Nos últimos anos, veteranas/os feministas começaram a se posicionar e conversar com as meninas para deixar claro que elas não precisam subir no palco e que existem pessoas que não apoiam a atividade, sendo estas/es também frequentemente hostilizadas/os por alguns organizadores.

Ainda que busquemos esse diálogo, não podemos desconsiderar que existe uma pressão exercida pela presença de centenas de pessoas em êxtase aguardando o evento, que no momento não há um domínio sobre a amplitude que este evento pode levar e que algumas meninas já nos relataram sentir vergonha em se negar a participar e, consequentemente, serem mal vistas pelo grupo.

Sabemos que as mulheres têm total capacidade para tomar suas decisões e lutamos pela sua liberdade, mas não ignoramos também que o ambiente em que são colocadas não é idóneo para que tal decisão seja tomada. Além disso, apesar de algumas participantes defenderem o evento, outras apoiam e se integram à nossa manifestação, e isso não pode ser desconsiderado.

MAS POR QUE O “MISS BIXETE” É MACHISTA?

Na sociedade machista em que fomos todos educados é natural que muitas mulheres estejam de acordo com esse tipo de expressão, e elas têm esse direito. No entanto, não podemos ignorar o fato de que muitas pessoas também se sentem extremamente ofendidas por essa atividade, que é realizada dentro do centro acadêmico sem o apoio da atual gestão.

Não é o livre acordo das mulheres participarem e assistirem que está sendo questionado, mas sim o fato de que o “Miss Bixete” é um concurso pensado para reproduzir padrões que consideram a mulher a um mero objeto. A liberdade sexual feminina, nesse cenário, só é interessante quando serve de mero objeto ao fetiche masculino. Isso não é emancipação, é hipocrisia.

A liberdade pela qual dizem prezar, na prática, mostra-se como uma liberdade heteronormativa, homofóbica e agressiva, em que só somos livres para concordar com seus padrões. Outras maneiras homo ou heterosexuais e outras formas de compreender a beleza não possuem espaço de expressão. Muitas das pessoas que esse ano reprimiram nossa manifestação através de graves ofensas foram as mesmas que incentivaram certas atividades em nome de uma “liberdade sexual e de expressão”, sendo este fato uma contradição em si.

Muitos nos consideram moralistas por fazermos oposição ao “concurso”. Consideramos moralista, sim, o ato de manipular as pessoas para satisfazer um padrão de sexualidade limitado, machista e opressor e que desconsidera outras realidades. A liberdade sexual que defendemos não inclui a utilização de palavras como “sapatão”, “viados” e “mal comidas” como forma de ofensa àqueles que se opõem à ela. Aí reside o verdadeiro moralismo e a limitação sexual a rasos padrões. Não é sobre sexo, nem sobre pudores. É sobre a o desrepeito às mulheres e àqueles, mulheres e homens, que lutam para mostrar que a nossa sexualidade não se reduz à isso e que se manifestam contra todo o contexto de violência verbal, simbólica e física que essas práticas envolvem, representam, e ajudam a reproduzir dentro e fora da universidade.

“MEU PRAZER NÃO É REGRADO
MINHA VONTADE NÃO TEM PADRÃO
MORALISMO É MANIPULAR
PRA SATISFAZER O SEU TESÃO
– NÃO NÃO NÃO VIOLÊNCIA NÃO (2x)”
(Samba de coco composto por manifestantes para o ato.)

Os fatos não estão livres de um caráter de discriminação simplesmente por serem aceitos. Estamos todos sujeitos a reproduzir certas lógicas que aprendemos a aceitar desde crianças. A utilização de um espaço público como o CAASO, no entanto, deve manter-se de maneira responsável pois esse é o ambiente em que se devem negar as formas de opressão aceitas e reproduzidas em outros espaços da sociedade.

Por que não fazer, então, um “Mister Bixo”?

O “Mister Bixo” nada mais seria do que uma atividade nos mesmos padrões superficiais, mas expondo os calouros homens. Muitos de nossos questionamentos em relação ao concurso não se limitam ao fato de serem mulheres ou homens que participem: não queremos que nenhuma pessoa esteja sujeita a tal “integração”.

O ATO DESSE ANO, 2013

Esse ano, pela segunda vez, o Coletivo de Mulheres do CAASO e Federal, com apoio da Frente Feminista de São Carlos organizou um protesto pacífico para denunciar o caráter machista da atividade, mostrando para as calouras que elas teriam apoio caso não quisessem participar e expondo que a existência dessa atividade não é consenso entre os estudantes. Muitas pessoas do campus e da cidade não concordam com ele, e passaram muito tempo caladas temendo a repressão que sabíamos que sofreríamos ao marcar nossa posição. É importante citar que esse ato não visava acabar com o “Miss Bixete”, nem teria força para isso.

Apoiamos e reconhecemos a importância das novas atividades que têm sido organizadas no mesmo horário por secretarias acadêmicas de diversos cursos e agora também pelo próprio CAASO, mas acreditamos que não podemos mais aceitar que uma atividade que ofende a tantas pessoas sem que expressemos nosso repúdio. Lutamos e lutaremos por um CAASO onde a diversidade, o respeito e a liberdade de expressão e de sexualidade de qualquer pessoa se expresse de modo a não oprimir os outros estudantes por ele representados.

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Manifestação feminista contra o “Miss Bixete”.
Foto: Laura Ferraz

Durante o ato fizemos batucadas, cantamos músicas e espalhamos cartazes questionadores, sempre de maneira pacífica. Distribuímos panfletos e tentamos conversar com algumas pessoas que se mostraram interessadas, mesmo diante da hostilidade tão grande com a qual fomos tratados.

Desde o príncipio, no entanto, sofremos todos os tipos de agressão verbal e simbólica. Ao contrário da declaração de um organizador feita em reportagem a um site no dia 02/03, NÃO fomos nós manifestantes que iniciamos as agressões e além disso nos organizarmos a todo o momento para não responder violentamente às ofensas feitas. É fundamental ressaltar que os organizadores não se consideram responsáveis pela reação dos participantes, mas em nenhum momento tentaram impedir ou amenizar os atritos gerados, ficando esse papel restrito a alguns diretores do CAASO presentes, aos próprios manifestantes e a alguns outros participantes.

Além do mais, a nudez dos estudantes mostrada na midia não nos ameaça nem nos choca. O que nos ameaça é que um desses estudantes mostre o pênis “para corrigir esse bando de sapatão e viado”. Nos ameaça que aticem um cachorro pra cima do protesto. Nos ameaça que rasguem nossos cartazes, agarrem as manifestantes, espalhem panfletos com os dizeres “Cinquenta golpes de cinta: a cura para o fogo no rabo dessa mulherada mal comida.”. Nos ameaça que, quando já partíamos, atirassem uma segunda bomba ao nosso lado e corressem em nossa direção com um pedaço de pau e o rosto tampado. Se o grupo reinvidica a liberdade de organizar tal evento, deve, no mínimo, aceitar nossa liberdade de contestá-lo e manifestar-nos contra.

E não ameaça apenas a nós, manifestantes, que nos dispusemos a enfrentar uma hostilidade de alguma forma já prevista, ainda que não esperada em tais proporções. Ameaça a todos que não foram ao protesto por um compreensivel medo do que poderia ocorrer.

Ameaça a luta por uma sociedade livre de uma normativa sexual limitadora e de padrões de beleza altamente excludentes. Ameaça a existência do espaço do nosso centro acadêmico que é fundamental e defendido por todos nós. Ameaça o direito de reagir, mesmo que pacíficamente, a atos totalmente questionáveis num espaço público.

Também assinam essa nota:

Coletivo Feminista Dandara – Direito/USP

Coletivo Feminista Lélia Gonzalez – Ciências Sociais e Filosofia/USP

Coletivo Feminista Marias Baderna – Letras/USP

AMORCRUSP – Associação dos Moradores do CRUSP, gestão Crusp Popular

Associação dxs Pós-graduandxs da USP –  Helenira “Preta” Rezende

CEGE – Centro de Estudos Geográficos Capistrano de Abreu (Geografia USP)

CEFISMA – Centro Acadêmico do Instituto de Física da USP

DCE Livre da USP

Gestão Transvivença, do GUIMA – Centro Acadêmico Guimarães Rosa de Relações Internacionais da USP

Núcleo de Consciência Negra na USP

PoliGen

DCE Unicamp

Centro Acadêmico George Shepherd – Instituto de Biologia da Unicamp

Coletivo de Mulheres Revolução Preta

Coletivo Feminista Rosa Lilás

Coletivo Rompendo Amarras

Fuzarca Feminista

Levante Popular da Juventude

Liga Brasileira de Lésbicas – São Paulo

Machismo Chato de Cada Dia

Marcha Mundial das Mulheres

Marcha das Vadias – Curitiba

PSOL

SAMBADELAS

UBM – União Brasileira de Mulheres

UNEAFRO

Universidade em Movimento

Juventude LibRe

Fórum de Pós-graduandos da UFPR

O Machismo Nosso de Cada Dia

Daniel Gomes da Fonseca  – Pós-graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada na USP

Fernanda Elias – FFLCH

Leonardo Rodrigues dos Santos – Graduado em História FFLCH/USP

Maria Isabel Bordini – mestranda em Letras da UFPR.

Marcia Tiemi Saito – USP

Marta Regina Domingues – Secretária Estadual de Mulheres do PT/SP

OBS: para assinar a nota, coloque o coletivo e/ou organização e/ou nome nos comentários, ou entre em contato com o Coletivo de Mulheres do CAASO e Federal pelo facebook: http://www.facebook.com/pages/Coletivo-de-Mulheres-do-CAASO-e-Federal/481659355231202

Outros apoios:

Nota da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) da Presidência da República

Nota da gestão do GUIMA de Repúdio aos acontecimentos durante o evento “Miss Bixete”, ocorrido no último dia 26 na USP São Carlos

Nota de repúdio ao Miss Bixete: “Somos mulheres, não objetos”, do DCE da USP

Nota de Repúdio ao ocorrido na USP – São Carlos, da Diretoria de Mulheres da UNE (também pode ser lida aqui)

Se cuida, se cuida, se cuida seu machista: a Universidade vai ser toda feminista!

Guest Post: Luta e agressão na USP de São Carlos (do blog Escreva, Lola, Escreva)

Os argumentos contrários à manifestação feminista no Miss Bixete (USP São Carlos, 2013)

Para o Coletivo de Mulheres do CAASO e Federal – Nota do grupo “Poéticas Feministas: um estudo sobre gênero e arte”, do Instituto de Artes da Unesp

 

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  1. Maria Apª Mattos

    Isso é o tipo de coisa que não pode continuar! Não podemos aceitar que as calouras sejam induzidas ou coagidas a participarem de uma idiotisse dessa. Fim do Miss Bixete jaaaaaaaaa!

  2. Maria Isabel Bordini

    Oi! Gostaria de assinar a nota! Meu nome é Maria Isabel Bordini e sou mestranda em Letras da UFPR.

  3. Pingback: Se cuida, se cuida, se cuida seu machista: a Universidade vai ser toda feminista! – Marcha Mundial das Mulheres

  4. A Associação dxs Pós-graduandxs da USP Helenira “Preta” Rezende assina a nota!
    Aliás, vcs viram isso?? http://www.feministacansada.com/post/44492821098
    é sobre a calourada da Poli… acabei de saber. Nem sei o que rolou. Vou tentar descobrir
    Força! Mf

  5. Fátima Andrade

    Reação totalmente desproporcional a uma manifestação legítima, com a qual eu concordo e apoio. Preocupante que estudantes universitários tenham postura tão retrógrada e reacionária, que aliás, desvela a real intenção do concurso: humilhar, inferiorizar e coagir as novas alunas. Parabéns às corajos@s manifestantes!!

  6. Pingback: NOTA OFICIAL DO COLETIVO DE MULHERES DO CAASO E FEDERAL SOBRE OS EVENTOS ACONTECIDOS NO DIA 26/02 NA USP SÃO CARLOS | Liga Brasileira de Lésbicas / SP

  7. Ana Beatriz

    Olá… sou do grupo SAMBADELAS, do Pimentas, Guarulhos, composto por mulheres feministas que fazem a discussão pra nossa emancipação. Iniciamos nossa articulação na UNIFESP, Universidade que deve também ser ocupado pelas palavras de ordem contra a opressão da mulher. Enfim, assinamos e nos colocamos na soma desta bandeira!
    Há-braços, compas!!

    “100% desse mundo foi as puta que pariu…
    olha a geni na pista…
    não pense com sua pica…
    não pense com sua pica…
    não precisa ser viril…
    100% desse mundo foi nós mesmas que pariu!”
    Sambadelas

  8. Marcia Tiemi Saito

    Olá, gostaria de assinar a nota:

    Marcia Tiemi Saito,

  9. Pingback: No dos outros é algodão | Class Jokers

  10. Carolina Vieira

    Mulheres, o Coletivo Feminista Dandara do Direito – USP também assinam a nota!

  11. machismochatodecadia

    Olá. O Machismo Chato de Cada Dia gostaria de assinar essa nota.
    http://machismochatodecadadia.tumblr.com/
    Obrigada!

  12. Ellen Amaral Silva

    Centro Acadêmico George Shepherd do Instituto de Biologia da Unicamp também assinam a nota.

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